quinta-feira, 17 de abril de 2008

Viver Não Dói
"Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado
e passamos a sofrer pelas nossas projecções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido
ao lado do nosso amor e não conhecemos,
por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto
e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente connosco,
mas por todos os momentos em que poderíamos estar
confidenciando a ela nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos
e nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que
o desperdício da vida está no amor que não damos,
nas forças que não usamos, na prudência egoísta
que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional."
Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

"Pensa num rio, denso e magestoso, que corre por milhas entre robustos diques, e tu sabes onde está o rio, o dique, a terra firme. A certa altura, o rio, de cansaço, porque correu por demasiado tempo e demasiado espaço, porque se aproxima o mar, que anula em si todos os rios, já não sabe o que é. Torna-se o seu próprio delta. Permanece talvez um braço maior, mas muitos outros se ramificam, em todas as direcções, e alguns confluem uns nos outros, e já não sabem o que está na origem do que é, e por vezes não sabes o que ainda é rio e o que já é mar..." (Umberto Eco, O Nome da Rosa)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Percorro as ruas do Bairro Alto sobre uma ligeira tensão. Olho as pessoas que entre risos e bebedeiras fintam a noite que ainda é uma criança.
Esta é uma noite de muito movimento, as ruas estão cheias, mas há um olhar que não pára de me perseguir. Entranho-me na multidão, tento escapar daquele olhar, mas sinto que quanto mais tento fugir mais ele se aproxima.
Decido parar, beber mais um copo e tentar integrar-me na alegria que o meu grupo transporta. Entre as conversas e os risos, já um pouco exagerados, desvio o meu olhar para o olhar que me persegue. Desta troca gratuíta surgem-me mil ideias e o meu cérebro começa a trabalhar a cem à hora.
Que estou eu a fazer? Porque insisto em seguir o olhar que me segue? Porque imagino coisas que aquele olhar não diz?
Paro de beber, deixo o copo a meio e despeço-me dos meus amigos. Saio apressada do pé deles e desço a rua que me leva ao Metro.
Apanho o transporte e entro na última carruagem. Sento-me numa posição que me permita controlar o que se passa à minha volta...
Nuns bancos à frente do meu está sentado um rapaz com olhos esbugalhados. Um rapaz novo, de olhar distante, talvez pensativo e a acompanhar o seu olhar contemplativo estão os seus lábios cerrados com uma pressão que denota preocupação.
Olho fixamente para ele despertando a sua atenção que retribui o olhar intimidando-me. Desvio de imediato o olhar e ele percebe. Sinto que continua a olhar, mas perco a coragem de o voltar a fitar, no entanto tento de soslaio olha-lo novamente.
Os olhos deste rapaz acalmam-me, ao contrário do olhar que me seguia no Bairro Alto. talvez porque este era acompanhado de um ar preocupado enquanto que o que me seguiu durante a noite parecia procurar algo em mim e isso era atormentador.
Fixo os meus olhos no vidro da carruagem, percorro as linhas coloridas colocadas nas paredes do Metro. Desisto de olhar o rapaz que se senta nos bancos da frente. Estou à distância de duas paragens do meu destino e sinto uma vontade enorme de saír.
O rapaz sai na paragem seguinte e eu continuo até à próxima, contudo fico confusa. Não sei porque é que o olhar do Bairro Alto me deixou assim, nem porque é que decidi contemplar o olhar daquele rapaz que seguia o seu rumo até casa provavelmente.

sábado, 1 de setembro de 2007

Transparência

Este nome pressupõe uma definição clara de qualquer coisa, mas que sentido se pode dar a algo que não é visto nitidamente?
Tive muito tempo até dar o passo decisivo na iniciação deste blog. Arranjei mil desculpas a mim mesma por ter medo de começar e no entanto dei-lhe este título tão sugestivo e por vezes tão intimidatório.
Neste espaço colocarei tudo o que achar importante pôr, de textos a fotos, passando pelas frases que me digam algo e até sugestões de algum programa cultural que possa achar interessante. No fundo, evidenciarei aquilo que faz parte de mim.